Relatos de Quem Cuida

“Sou médico, mas ficava na rua e tive de comer lixo”

Venho da cidade de Bolívar, estudei na Universidade de Oriente (Udo), faculdade no núcleo de Bolívar. Eu vim para o Brasil neste mesmo ano, tenho dois meses, mais ou menos, em Boa Vista. Me graduei e passei um tempo trabalhando em hospitais municipais, depois estive trabalhando na especialização em estética clínica na cidade de Maturin.

Voltei para Bolivar e trabalhei na clínica privada de estética, porém a minha situação no país ficou muito mal. Inclusive uma especialização tão lucrativa como a estética. Para a estética, você precisa ter muito dinheiro, então a situação da economia em meu país ficou muito ruim. O aumento da inflação pelo dólar acabou com tudo e então a vida em meu país ficou muito ruim. Eu segui trabalhando, mas era muito duro.

Depois, meus pais ficaram muito doentes. Meu pai tem Mal de Parkinson e não consegue tratamento nem medicamentos, e minha mãe já teve o terceiro AVC. Então eu tentei tratar suas doenças mas não se conseguiam medicamentos, muito difícil. Eu vim para Boa Vista para conseguir um medicamento que se chama Somazina, que é Citicolina. Mas foi um pouco difícil.

Então eu não pude conseguir medicamentos e meu dinheiro acabou, não tive dinheiro para voltar e estava na rua, precisando de trabalho e consegui com um rapaz que tem uma empresa de pré-moldados, no bairro Santa Tereza. Trabalhei para ele e para outro rapaz que tem também uma fábrica de pré-moldados, mas era para fazer fossa séptica para banheiros. Mas o trabalho fui diminuindo e diminuindo até que acabou.

E por minha condição de médico, é difícil encontrar trabalho. Eu ficava na rua, sobrevivendo. Eu cheguei inclusive a ter que comer do lixo, mas depois descobri que haviam lugares que davam alimento grátis, e pensei em ficar nesses lugares. Uma trabalhadora social, a senhora Milenis já pegou meu nome para me ajudar e falou para eu ir para um abrigo.

Já aqui no Brasil, estou a três semanas e uns dias. Precisavam de médicos para ajudar como colaboradores. E todo esse tempo aqui eu trabalhei com muita harmonia com os médicos brasileiros. Tratando de conter emergências, para tentar diminuir um pouco a carga de doenças para as consultas com médicos brasileiros. Ajudar a diminuir o número de pacientes é o mais importante.

Eu tenho que tratar de trabalhar, porque é muito difícil exercer a medicina aqui. Então pensei que o melhor seria trabalhar para conseguir ir a outro país como a Argentina. Estou esperando que o sonho aconteça, porque os militares querem nos ajudar, a ONU quer nos ajudar, mas é muito difícil.

As regras no Brasil são muito restritas a respeito do exercício da medicina, mas nós entendemos isso e teremos que aceitar e nos adaptar. Os brasileiros militares têm sido muito bons conosco. Eu agradeço os esforços para nos ajudar e entendo as dificuldades com as leis, entendo isso.

Sobre a Ebserh Solidária, é importante porque descongestiona a quantidade de doenças no abrigo, além de formar e educar os venezuelanos. Temos que ensinar o sistema brasileiro de saúde do Brasil. Muitos venezuelanos estão mal-acostumados com o sistema de saúde da Venezuela. Então, falando e educando ajuda a não congestionar a atenção médica aqui.

Juan Borges
Imigrante venezuelano

Sobre a Ebserh

Instituição vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) administra atualmente 40 hospitais universitários federais. O objetivo é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

A empresa, criada em dezembro de 2011, também é responsável pela gestão do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), que contempla ações em todas as unidades existentes no país, incluindo as não filiadas à Ebserh.

Ebserh Solidária