Minha História com a Rede Ebserh Minha História com a Rede Ebserh

O projeto “Minha História com a Rede Ebserh” apresenta relatos de superação e a trajetória até a cura dos pacientes atendidos pelos nossos hospitais universitários federais. É o seu trabalho mudando a vida de quem mais precisa!

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“Meu parto foi na rede pública e foi humanizado”

Minha História com a Rede Ebserh

“Meu parto foi na rede pública e foi humanizado”

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Minha filha nasceu. Minha surpresa inesperada, meu verdadeiro amor. Para ela chegar do lado de cá, passei algum susto, muito medo, e certa dor. Desde o início da gestação sentia a necessidade de meu parto ser no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), para isso fiz todo o pré-natal pelo SUS. Um dos motivos mais importantes de escolher esse hospital foi o fato da minha prima Giana trabalhar lá e me passar muita segurança.

Às 7h30 de 28 de setembro fui internada; às 12:30 começaram a indução do parto. A equipe me orientou muito bem quanto ao procedimento: o padrão é utilizar no máximo 7 compridos de uma medicação de 4 em 4 horas, a fim de primeiramente afinar o colo do útero e posteriormente dilatá-lo. O conforto foi ouvir dos médicos residentes (Gabriel Karam Araújo e Camila Leal) que algumas mulheres reagem a partir do primeiro comprimido e que eu poderia (QUASE NEM ACREDITEI NISSO) beber, comer (chocolate também!!!), dançar, caminhar, tomar banho, escutar música, escolher a posição que eu quisesse - sendo na maca, na bola, no cavalinho (tipo de banco usado para partos com apoio frontal para os braços) etc.

Como o medicamento é introduzido de 4 em 4 horas, assim também é o monitoramento da dilatação (toque). Nos intervalos, a equipe de doutorandos (estudantes de graduação do curso de medicina) checa os sinais vitais do bebê frequentemente, auscultando o coraçãozinho e fazendo menos frequentemente o MAP (exame não invasivo que mede a frequência cardíaca do bebê e também as contrações.

Eu tinha intervalos de 3 horas para me ajudar e 1 hora de castigo para “descansar”, então planejei fazer o que eu pudesse para me distrair e auxiliar meu corpo. Furei o chão do CO de tanto andar, fiz agachamentos usando a bola de pilates, me alonguei, pratiquei os exercícios de respiração orientados pela doula, dancei até funk com a dona Etiene dando risada e as outras pacientes achando que eu só podia ser louca.

Até que chegou a noite e as contrações aumentaram bastante. Por volta das 2h30 foi a vez do 4º comprimido e para quem está curioso sobre a dor, até esse momento estava muito tranquilo e aproveitei para dormir. Acordei depois das 5 da manhã com contrações mais fortes, fui pro corredor já vazio nesse horário e comecei a caminhada. Me senti mais fraca e quando cheguei na porta do quarto para avisar minha irmã que achava que - antes de terminar de falar - a bolsa tinha estourado. 

Devia ser por volta das 9h quando a equipe veio verificar como estava a dilatação e fazer um MAP. Tive que ficar deitada de barriga para cima para realizar o exame, e esse momento posso dizer que foi o que mais sofri. Sentia tanta dor, tanto frio, tanto calor, tanta fraqueza, tanto medo. Não conseguia pensar logicamente e só pedia que terminasse. Já não ficava com os olhos abertos e só “acordava” com as dores das contrações. Acho que ter essa espécie de desmaios ou delírios foi a maneira que meu corpo achou de me ajudar a passar por essa experiência. 

Com 10 cm de dilatação, a equipe explicou que eu estava entrando no período expulsivo, que iria começar a sentir vontade de empurrar, que eles estavam arrumando a sala de parto e que eu teria de ficar no leito até a Anna Cecíllia começar a coroar. Poderia escolher a posição que me sentisse melhor e achei que seria ficar de cócoras. Quando me obriguei a sentar na maca cujo apoio para as costas foi colocado em uns 45º, a equipe me orientou a puxar as pernas para perto do bumbum e começar a fazer força quando sentisse necessário. Para mim foi uma posição confortável.

Desci da maca e fui caminhando com a ajuda de duas pessoas para a sala de parto. Mal abria os olhos e foi extremamente difícil ter que andar e não fazer força quando o corpo empurrava. Para minha alegria a cama de parto era daquelas em que a gestante fica semi sentada e com os pés apoiados, tendo uma barra que pode se segurar para fazer força. 

Me posicionei, o médico começou a assepsia... Consegui olhar rapidamente e só pude ver olhos femininos por detrás daquelas máscaras azuis. Haviam talvez umas 10 pessoas, mas quando fechava os olhos sentia a sala cheia. Não que estivesse me sentindo mal com tantas presenças, mas havia energia de mais corpos ali.

Eles aplicaram soro fisiológico aquecido na região genital (melhor coisa do mundo naquela hora) e o médico fez massagem no meu períneo para ajudar. A cada contração o médico e a equipe me falavam para esperar até não aguentar de dor e então empurrar, fazer força, continuar, não desistir. Mas eu não havia entendido muito bem o que era o pico de dor por que tudo doía demais. Eu não havia me desprendido do medo de me romper, de me rasgar e de empurrar de verdade.

Foram duas as vezes em que a força não foi suficiente, a covardia me venceu e a bebê voltou. Na segunda eu senti ela voltando bastante e demorou para vir a próxima contração. Alguém começou a massagear suavemente a minha barriga para estimular o útero a contrair, acho que era a mesma moça que havia endossado meu pedido de não haver episio, e ela não empurrou para baixo em nenhum momento.

Quando senti a terceira contração iniciando, sabia que dessa vez não poderia fraquejar, deveria esperar mais para fazer força, me despir de todo medo, desistir de pensar ainda em mim e me livrar de todo egoísmo, me abrir para receber minha filha, ter coragem. E dessa vez, ela chegou. Mais uma força e estava sendo colocada nos meus braços. Tossiu, espirrou e então chorou. Sexta-feira, 29 de setembro, 10h03 am. Enquanto pensava se era verdade mesmo que ela estava ali no meu peito, respirando e tão perfeita, ouvi alguém falando “elas merecem que espere para cortar o cordão”.

Esse foi o relato de um parto que poderia ter sido traumático, mas que excedeu positivamente todas as minhas expectativas. Foi no SUS, foi público e foi humanizado. Além do meu empoderamento, as pessoas que me acompanharam tiveram total influência para o sucesso do nascimento da minha filha. Tive a oportunidade de provar a capacidade do meu corpo e a partir disso me sentir mais capaz, mais confiante, mais completa, podendo sentir na alma, por fim, que eu consegui.

Alinne Zucolotto, 28 anos, empresária

Sobre a Ebserh

Desde dezembro de 2013, o HUSM-UFSM é filiado à Ebserh, estatal vinculada ao Ministério da Educação que administra atualmente 39 hospitais universitários federais. O objetivo da Rede Ebserh é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

O órgão, criado em dezembro de 2011, também é responsável pela gestão do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), que contempla ações nas 50 unidades existentes no país, incluindo as não filiadas à Ebserh.