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“Depois do incêndio, eu quis cuidar de pessoas em reabilitação”

Relatos de quem cuida

“Depois do incêndio, eu quis cuidar de pessoas em reabilitação”

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O mês de janeiro para mim é bem complicado. As lembranças de cinco anos atrás retomam e por volta do dia 25 eu começo a lembrar de tudo que fiz naqueles dias. Eu lembro de tudo, até o momento de ser entubada no hospital. Lembro da hora que cheguei na Boate Kiss, que a fila estava enorme. Éramos um grupo grande, lembro de ficarmos na outra pista, eu e mais duas amigas, além de outros amigos. Lembro que na hora que começou a confusão, eu achei que fosse uma briga. Minhas amigas tinham ido ao banheiro. Todo mundo que estava ali comigo correu. Quando eu corri, escorreguei e caí. Mas ainda assim, voltei, pois eu queria buscar minhas amigas. Nisso, um homem de branco – que eu digo que foi meu anjo – me puxou pelo braço e me levou de volta para a porta.

Quando eu cheguei na porta caí de joelhos, foi aí que vi que era fogo. A primeira coisa que pensei naquele momento era que eu não queria morrer, eu pensei na minha família. Meu instinto me fez puxar o vestido para tapar o nariz e comecei a rezar e pedir a Deus para me tirar dali. Naquele instante me deu uma ideia de tirar a sandália e sair engatinhando, tirei do pé direito e quando fui tirar do esquerdo, alguém me puxou para fora e me colocou na calçada. Mas eu não enxergava nada, estava tudo embaçado por causa da fumaça tóxica. Nisso, um dos meus amigos me viu e se desesperou, acho que porque eu estava toda queimada e suja de fuligem. Foi ele quem me levou para o hospital, eu fui a primeira a receber atendimento lá.

Quando meu pai foi chamado para me reconhecer, pois eu estava sem documentos, ele não me identificou. Eu estava muito inchada, entubada e com queimaduras nos braços. Como meu caso era um dos mais graves, fui transferida para Porto Alegre. A partir daí, lembro de poucas coisas. Fiquei 78 dias internada. Todos os profissionais que me atenderam foram muito atenciosos. Eu acho que, como foi uma tragédia que atingiu muitos jovens, as pessoas enxergaram em nós os seus filhos e cuidaram de nós de uma forma especial.

Fui atendida por profissionais de terapia ocupacional em diversos momentos, que me auxiliaram na recuperação física e emocional. Ali eu vi a importância desse profissional desde a internação do paciente, não só na parte de reabilitação física, mas também no cuidado e na atenção à saúde mental do paciente. O terapeuta ocupacional é extremamente essencial para um tratamento hospitalar e para uma reabilitação completa do paciente.

Eu tive 18% do meu corpo queimado, tive meu pé direito amputado e uma parte do pulmão comprometida. Estou bem recuperada, mas cuido bastante da minha saúde. Perdi três amigas no incêndio. As pessoas não podem esquecer dessa tragédia. Não foi a última vez que aconteceu algo assim. Precisamos falar sobre isso, fiscalizar, nos prevenir e nos preparar para uma emergência. Isso pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento.

Sou muito grata pela minha vida. Se Deus me deu uma segunda chance é porque minha missão ainda não acabou. Talvez minha missão seja na profissão. Na época eu estava em dúvida com relação à minha escolha, mas depois do incêndio eu tive certeza que queria ser terapeuta ocupacional e cuidar de pessoas em reabilitação. Me sinto uma profissional mais humana depois do que eu passei. Acho que trato melhor os pacientes por ter passado por algo assim e por ter estado no lugar onde hoje eles estão. Eu trabalho com amor e carinho e sei que eles precisam de mim.

Kelen Ferreira
Terapeuta Ocupacional – Hospital Escola da UFPel

 

Sobre a Ebserh

Desde outubro de 2014, o HE-UFPel faz parte da Rede Ebserh. Estatal vinculada ao Ministério da Educação, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) administra 39 hospitais universitários federais. O objetivo é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

A empresa, criada em dezembro de 2011, também é responsável pela gestão do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), que contempla ações em todas as unidades existentes no país, incluindo as não filiadas à Ebserh. 



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O projeto “Relatos de quem cuida” apresenta histórias de atendimentos de saúde marcantes na vida dos colaboradores (funcionários, estudantes, residentes, professores) dos hospitais da Rede Ebserh. É o trabalho de pessoas que se dedicam para mudar a vida de quem mais precisa!