Relatos de Quem Cuida Relatos de Quem Cuida

O projeto “Relatos de quem cuida” apresenta histórias de atendimentos de saúde marcantes na vida dos colaboradores (funcionários, estudantes, residentes, professores) dos hospitais da Rede Ebserh. É o trabalho de pessoas que se dedicam para mudar a vida de quem mais precisa!

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“Ele só precisava de alguém em quem confiasse”

Relatos de quem cuida

“Ele só precisava de alguém em quem confiasse”

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Vim de uma família que sempre valorizou muito a educação e a universidade, com anos atuando como profissional de Fisioterapia no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Eis que num dia, dos 27 anos em que trabalhei na UTI, encontrei um paciente ligado a um ventilador mecânico [equipamento utilizado para auxiliar na respiração], tentando se adaptar sem a máquina. Tratava-se de um caso de trauma raquimedular [um tipo de lesão na coluna] que deixara o paciente tetraplégico. Foram inúmeras tentativas de desligar o ventilador e nada! Quanto maior o tempo de ventilação, maiores eram os riscos deste paciente desenvolver infecções, entre outros problemas.

Curiosamente, este paciente retornava ao ventilador à noite, no momento em que a equipe trocava o plantão e sua solidão aumentava. Durante o dia, suportava, tranquilamente, ficar fora da máquina. Entretanto, a noite apresentava vários sinais de instabilidade na frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação de oxigênio, além de sudorese e tremores. Tentamos uma avaliação e acompanhamento psiquiátrico, pois tratava-se de um caso de dependência psicológica da máquina.

Através de alguns indicadores – usados para detectar disfunções musculares e problemas de trocas gasosas que poderiam impedir a volta da respiração espontânea – pude determinar que não havia nenhum impedimento pulmonar e/ou sistêmico que colaborasse com o fracasso no desmame do equipamento.

Conversando com o paciente e entendendo suas angústias, resolvi ficar no serviço na hora exata da desestabilização, apostando em várias horas de conversas à beira do leito e uma, em especial, que de certa forma colocava em xeque toda minha formação. Verbalizei ao paciente, sentada ao lado de sua cama e de mãos dadas com ele: “Se você precisar voltar ao ventilador mecânico hoje, eu rasgo meu diploma na sua frente! Você não precisa mais dessa máquina para respirar!” O paciente arregalou os olhos e fitou-me com um ar sério e desconfiado. Acho que minha mão suava mais que a dele! Mas conseguimos! Naquele momento criou-se um vínculo de corresponsabilidade indestrutível! Ele só precisava de alguém em quem confiasse e que ficasse ao seu lado, incentivando-o a respirar sozinho naquele momento crucial do dia.

Anos mais tarde, encontrei este mesmo paciente num dos corredores do hospital. Eu como sempre, rodeada de alunos, pois dava aulas na graduação e pós-graduação. Ele parou e disse: “ Quero dizer aos seus alunos que se você está até hoje trabalhando é por minha causa! Eu não deixei que você rasgasse seu diploma!”. Foram momentos de alegria e descontração. Ele explicou o acontecido, e eu – agradecida – ouvindo-o contar sua história. Assim, fiz a minha parte como tantas vezes, proporcionando aos pacientes um tratamento humanizado, com escuta atentiva e a criação de vínculos com os meus assistidos.

Nós profissionais da saúde devemos ter, além do embasamento teórico-técnico-científico, um embasamento ético-moral que seja um referencial expressivo de nossas ações. E que, o tratamento humanizado seja o diferencial que oriente as nossas condutas e as nossas infinitas situações e possibilidades cotidianas.

Marisa Bastos Pereira
Fisioterapeuta e chefe da Unidade de Reabilitação do HUSM-UFSM

Sobre a Ebserh

Desde dezembro de 2013, o HUSM-UFSM é filiado à Rede Ebserh. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) administra atualmente 40 hospitais universitários federais. O objetivo é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

Criada em dezembro de 2011, a empresa também é responsável pela gestão do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), que contempla ações em todas as unidades existentes no país, incluindo as não filiadas à Ebserh.