Relatos de Quem Cuida Relatos de Quem Cuida

O projeto “Relatos de quem cuida” apresenta histórias de atendimentos de saúde marcantes na vida dos colaboradores (funcionários, estudantes, residentes, professores) dos hospitais da Rede Ebserh. É o trabalho de pessoas que se dedicam para mudar a vida de quem mais precisa!

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“Ele é um paratleta e já ganhou medalhas nos campeonatos”

Relatos de quem cuida

“Ele é um paratleta e já ganhou medalhas nos campeonatos”

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Eu acompanhei a chegada do Tarcisio ao Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS). Ele é um menino muito esperto. Quando a mãe conversou comigo pela primeira vez, eu não sabia que ele se locomovia usando um skate. Um belo dia, quando o vi pelo HU-UFS, Tarcisio estava percorrendo os corredores em cima do seu skate. A primeira reação com um paciente portador de necessidade especial é a preocupação. Tarcisio nasceu com um problema congênito, que impediu a formação correta dos membros inferiores e algumas estruturas ósseas relacionadas. Especialmente no caso dele, essa alteração tem as suas peculiaridades.

Depois de conhecê-lo, percebi que a minha preocupação era maior que o necessário. Imaginávamos uma dificuldade de locomoção, mas ele nos mostrou que se locomovia muito bem, com facilidade. Na verdade, a dificuldade era nossa e não dele, já que tivemos de aprender a não subestimar as capacidades do Tarcisio. A fisioterapia ajudou no processo de qualificar essa locomoção, cuja independência foi buscada por ele mesmo.

Recentemente, a mãe de Tarcisio me mandou uma mensagem, dizendo que ele havia se tornado um paratleta. Eu estava na minha sala e comecei a chorar de felicidade. Cada vitória não é uma conquista só dele; é um triunfo de toda a Unidade de Reabilitação do HU-UFS. Eu parecia uma boba, mostrando a mensagem para todo mundo da equipe. Todos ficaram felizes. Sinto-me realizada: quando vemos esse retorno do paciente, sabemos que o objetivo de torná-lo o mais independente possível foi atingido. 

Géssica Uruga

Fisioterapeuta da Unidade de Reabilitação do HU-UFS.

 

Quando conheci o Tarcisio, ele foi envolvido com os estudantes numa prática de estágio supervisionado da UFS, da qual eu era o supervisor com outros professores. O que mais me chamou a atenção naquele momento foi a forma de locomoção dele. Quando o vi no skate, perguntei à mãe: ele não tem cadeira de rodas? Ela prontamente me explicou que ele tinha a cadeira, mas que preferia o skate para poder, dentre outras coisas, brincar com os amigos. Fiquei surpreendido quando ela me disse que a utilização do skate se deu de forma natural, porque ele queria mais agilidade para acompanhar as outras crianças nas atividades diárias.

Na verdade, quando olho para o Tarcisio, penso que ele nem deveria ser um paciente da fisioterapia ortopédica. Para a Unidade de Reabilitação do HU-UFS, ele é uma pessoa normal. Às vezes, temos uma ideia de que as pessoas com deficiência são mais frágeis e têm mais dificuldades; o Tarcisio, na contramão desse pensamento, é melhor do que nós todos juntos. A sua capacidade de independência e de desenvolvimento de funções motoras é impressionante. A filosofia da Unidade de Reabilitação do HU-UFS é fazer com que o paciente retorne a todas as suas atividades, para que ele possa fazer tudo que quer e de que goste; no caso do Tarcisio, trabalhamos para aprimorar os dons que ele já tem. Não sei se me deixou mais alegre saber que a mãe o ajudou a encontrar o paratletismo ou o fato de que ele já ganhou várias medalhas. Nós cuidamos, porém quem venceu foi ele.

Jader Neto

Chefe da Unidade de Reabilitação do HU-UFS.

No dia 22 de agosto de 2005, o parto do Tarcisio aconteceu. Eu não sabia que ele nasceria com uma deficiência, porque o exame de ultrassom não mostrou. Fiquei sabendo logo após o parto. Iniciei a minha luta apoiada pelo amor. Quando finalmente procurei o HU-UFS, tinha esperanças nascidas de reportagens positivas que havia visto na televisão. O primeiro fisioterapeuta que atendeu o Tarcisio foi o Dr. Alexandre Repinaldo, quem me recebeu maravilhosamente bem. Ele ficou perplexo quando viu que o Tarcisio se deslocava com a ajuda de um skate. Todo mundo se surpreendeu: apesar de ter a deformidade, ele é muito ágil.

Acredito que o Tarcisio foi ficando no serviço porque os profissionais se apaixonaram pela alegria de viver dele. Nesses quase cinco anos de HU-UFS, conheci a Géssica Uruga e o Dr. Jader, que se somaram ao time de bom acolhimento que nós recebemos. A Unidade de Reabilitação do HU-UFS tem sido mais que um ambiente de tratamento para o Tarcisio: todos querem sempre estar a par da vida do meu filho, saber as necessidades dele, tentar me dar um suporte de afeto também.

Sempre que conto esta história, começo a me emocionar. Foi uma luta muito grande, mas o amor pela vida enfrenta qualquer dificuldade. Eu tenho muito orgulho do meu filho. Ele faz tudo sozinho: toma banho, sabe se vestir, joga futebol. E o mais importante: ele tem amigos que o tratam bem. Eu nunca quis criar o Tarcisio como um menino retraído; sempre o incentivei a fazer qualquer coisa, independentemente da deficiência. Agora, ele é um paratleta e já ganhou medalhas nos campeonatos de que participou. No futuro, ele conquistará todos os sonhos pelos quais batalhar.

Vivian Nunes

Mãe do Tarcisio e a sua maior cuidadora

 

Sobre a Ebserh

Desde outubro de 2013, o HU-UFS é filiado à Rede Ebserh. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) administra atualmente 40 hospitais universitários federais. O objetivo é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

A empresa, criada em dezembro de 2011, também é responsável pela gestão do Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), que contempla ações em todas as unidades existentes no país, incluindo as não filiadas à Ebserh.